No Dia Mundial do Teatro, evoé à trajetória provocativa de Wellington Monteclaro
Teatrólogo, poeta e gestor cultural de Juazeiro construiu uma obra marcada pela identidade ribeirinha e segue influenciando cenas
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| | Foto: arquivo pessoal | |
por Eduarda Silva
Natural de Juazeiro (BA), Wellington Monteclaro (1968–2015) construiu uma trajetória multifacetada. Teatrólogo, poeta, carnavalesco e artista plástico, ele se tornou uma figura central da cena cultural do Vale do São Francisco ao traduzir em arte uma identidade atravessada pelas raízes afro-indígenas, pela vivência periférica e pela afirmação de sua homossexualidade.
Registrado como Wellington Coelho, ele foi o quinto e último filho de Dona Dalva Coelho, e foi criado em Juazeiro, cidade que descrevia como seu lugar de maior afeição. Sua jornada se iniciou, a partir da observação atenta do cotidiano ribeirinho e dos ritos locais, elementos que mais tarde definiriam sua assinatura artística.
Sob o olhar da mãe e maior incentivadora, o menino já demonstrava uma determinação que ela define como um “brilho nas ações”. Wellington encontrou no seio familiar o espaço para que sua curiosidade e determinação começassem a moldar o artista que viria a ser.
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| | Foto: arquivo pessoal | |
A gênese do ‘artista total’
O contato inicial de Wellington com a pintura ocorreu de forma autodidata, ainda na juventude. Ele utilizava as artes plásticas para materializar sua visão sobre o território e as figuras de Juazeiro. Essa habilidade técnica com as cores e formas serviu de base para sua futura atuação como cenógrafo e figurinista, permitindo que ele concebesse a estética visual de seus espetáculos como uma extensão do corpo do ator.
O ingresso no teatro aconteceu durante sua formação acadêmica. Embora tenha cursado pedagogia na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), foi nas oficinas de artes cênicas que ele encontrou sua principal via de expressão. Nesse cenário, em 1994, o método de Wellington cruzou o caminho de Maísa Lins, então uma jovem aluna de suas oficinas e hoje professora, doutora e pesquisadora que resgata a memória do mestre.
Seus primeiros trabalhos no início dos anos 1990, como a peça “A Coroa de Orquídeas”, de Nelson Rodrigues, e o texto autoral “Não Quero Esquilos”, já demonstravam sua capacidade de liderança e seu rigor técnico na direção de atores. Segundo a pesquisadora, “ele era muito dedicado, muito disciplinado e muito exigente”.
Wellington não aceitava o amadorismo e acreditava piamente na profissionalização do artista no interior, lutando contra a ideia de que a arte feita fora dos grandes centros deveria ser menor. Mas, ele não se limitava a atuar, se interessava pela engrenagem completa do espetáculo, trabalhava com materiais rústicos como juta, palha e barro, e os transformava em figurinos e máscaras.
Wellington assinava a encenação, a dramaturgia e as visualidades, como se viu na estreia de “Supra-Anjos”, em 1998. O diretor Thom Galiano, que assistiu à montagem ainda adolescente, destaca que a obra possuía uma assinatura provocativa que soava à frente do seu tempo. Essa busca pela perfeição fez dele um “artista total”.
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| | Foto: arquivo pessoal | |
Para além dos centros
Além dos palcos, Wellington ocupou espaços estratégicos na gestão pública como gerente de cultura de Juazeiro e manteve uma presença ativa na Casa do Artesão. Ele defendia a ocupação de espaços periféricos, acreditando que a arte não deveria se restringir aos centros institucionais, mas habitar onde a vida acontecia.
Essa visão política era sustentada por uma organização técnica, materializada no projeto “Alto da Liberdade”. O documento, que reúne detalhamentos de cenários, figurinos e planilhas orçamentárias, revela sua preocupação em garantir não apenas a viabilidade da cena, mas a preservação da memória de cada produção cultural.
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| | Foto: arquivo pessoal | |
Canção póstuma para o Nego D’água
A maturidade artística de Wellington Monteclaro encontrou na literatura uma forma de registrar sua percepção sobre o território ribeirinho. Sua obra-prima, o livro de poesias “Canção de Ninar Nego d’Água”, apresenta-se como um mergulho que atravessa a superfície espelhada do Rio São Francisco para alcançar o que há de mais profundo na identidade local.
Sob a escrita de Wellington, o rio deixa de ser apenas geografia para se tornar uma entidade mística e política. Nele, a figura do Nego d’Água é despida do folclore meramente ilustrativo e revestida como um símbolo de resistência e proteção do território ribeirinho.
“É um livro muito revelador, muito intimista. Ele mergulha na alma de Juazeiro indo nos becos, nas lendas e no rio”, afirma Maísa Lins. Para ela, Wellington conseguia falar da realidade do Vale de uma maneira que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, entenderia.
O processo de escrita e finalização do livro foi interrompido por sua partida de forma prematura, em junho de 2015. Wellington deixou seu livro pronto para a edição, mas não chegou a vê-lo impresso. O lançamento ocorreu apenas em janeiro de 2017.
Para Dona Dalva, a publicação foi o cumprimento de uma missão coletiva: garantir que o legado literário do artista fosse compartilhado com a cidade que ele amava.
Essa mesma devoção à memória se transformou em páginas escritas pela própria mãe. Em sua obra biográfica “Wellington Monteclaro: Um belo jardim”, ela resgata a cronologia do artista e a essência do filho que, desde cedo, manifestava a urgência do criar. O livro funciona como um diário afetivo que preserva as raízes de Wellington, servindo hoje como uma das principais fontes para conhecê-lo.
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| | Foto: arquivo pessoal | |
Flores de um jardim eterno
Atualmente, o legado de Wellington Monteclaro é objeto de pesquisa e salvaguarda pela Uneb, através do projeto “Wellington Monteclaro: Vida e Obra”, coordenado por Maísa Lins. O trabalho envolve a higienização e digitalização de manuscritos, fotos e projetos inéditos que corriam o risco de se perder pelo desgaste do tempo. As monitoras Edna Barbosa, Andréa de Deus e Kauane Rainara trabalham para catalogar esses materiais e ampliar o acesso à obra do artista.
Paralelamente, na prática teatral, a Trup Errante mantém a obra em movimento com o espetáculo “Réquiem: Wellington Monteclaro Presente”, onde a poesia de Wellington é reencarnada em “corpo coletivo”. A montagem utiliza poesias e depoimentos deixados por ele para construir uma leitura dramatizada performática.
O esforço acadêmico e artístico busca suprir a lacuna deixada pela irregularidade de políticas públicas, como o Festival de Teatro Wellington Monteclaro, criado pela Lei Municipal nº 2.663/2016, que tem sido sistematicamente ignorado pelas gestões, tendo sido realizado apenas duas vezes desde a sua criação.
Wellington Monteclaro permanece como uma presença vivida e insubstituível. Entre os papéis restaurados e os aplausos que ainda ecoam nos palcos do Vale, sua trajetória lembra-nos que a memória, assim como a arte, é uma forma de resistência.


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