Corpo em confluência: 20 anos de André Vitor Brandão na dança

by - abril 11, 2026

Bailarino, pesquisador e gestor cultural desenvolve trabalhos que conectam cena, artes visuais e o imaginário do Rio São Francisco

| Foto: reprodução do filme 'Onde Ele Anda É Outro Céu |

por Eduarda Silva

Entre o corpo e o território, a dança de André Vitor Brandão se constrói como campo de atravessamentos, onde arte e a política caminham juntas. Nascido em Campo Formoso (BA) e radicado desde a infância em Petrolina (PE), o artista encontrou no Vale do São Francisco não apenas um lugar de formação, mas também o ponto de partida para uma trajetória em diálogo com o território.

Foi ainda na escola que começou a se aproximar das artes, integrando grupos de dança e teatro em um período de intensa movimentação cultural na cidade. Nesse contexto, passou pelo Brasílica de Dança e ampliou seu contato com artistas da cena local. Pouco tempo depois, em 2006, ingressou na Cia. de Dança do Sesc Petrolina, onde constrói uma trajetória de dezenove anos como bailarino e assistente de direção.

É nesse percurso que também se consolida uma de suas principais linhas de investigação: a presença do corpo masculino na dança. Ao refletir sobre o contexto do sertão, marcado por imagens rígidas de masculinidade, André passa a compreender o homem que dança como um corpo que desloca expectativas

| Foto: Thierri Oliveira |


Sua atuação com a Qualquer Um dos 2 Companhia de Dança contribui diretamente para esse debate, levando à cena trabalhos que abordam gênero, afetividade e desejo. Essa pesquisa também aparece no livro “O homem que dança: a presença do corpo masculino na dança contemporânea”, publicado em 2020.

Esse pensamento atravessa suas criações autorais. Na videodança “Para não dançar em segredo”, premiado pelo júri popular na Mostra Absurda de Cinema, o movimento aparece como forma de tensionar padrões e expor camadas invisibilizadas da experiência masculina. Já no solo “Onde Ele Anda é Outro Céu”, o artista estabelece um diálogo mais direto com as artes visuais, utilizando referências como René Magritte para pensar composição, luz e imagem dentro da cena.

A partir daí, a relação entre dança e artes visuais passa a operar de forma mais integrada em sua pesquisa. Em seus espetáculos e filmes-dança, os elementos visuais deixam de ser apenas suporte e passam a estruturar a criação, organizando o espaço e orientando o movimento.

Esse mesmo princípio se desdobra nos trabalhos solos mais recentes. Em “Nêgo d’água”, o processo parte de investigações no corpo e de relações com o espaço, a memória e o território. Ainda que esteja sozinho em cena, o trabalho se constrói a partir de referências coletivas e de uma escuta contínua do que emerge durante a criação. Nesse sentido, o corpo é pensado em relação com o imaginário e com as cosmologias ligadas ao Rio São Francisco.

A relação entre o individual e o coletivo, aliás, atravessa toda a sua trajetória. Mesmo nos solos, a experiência com grupos e companhias segue presente, fazendo com que cada trabalho seja atravessado por encontros, colaborações e trocas acumuladas ao longo do tempo.

| Foto: Nohara Serafim |


Paralelamente à criação artística, André desenvolve um trabalho na área de gestão cultural. No Sesc, onde atua desde 2010, coordena ações que envolvem curadoria, formação e circulação artística, incluindo projetos na Galeria de Artes Ana das Carrancas. Entre as iniciativas, está a Mostra Flutuante de Artes Visuais, criada em 2012, que leva exposições em um barco pelas margens do rio, conectando cidades e comunidades ribeirinhas e ampliando o acesso à produção artística.

Essa atuação também se estende a projetos voltados à economia criativa e à formação cultural em diferentes territórios do Vale do São Francisco, como ações desenvolvidas na Ilha do Massangano e em comunidades quilombolas, articulando cultura, educação e geração de renda.

Ao olhar para a cena de dança da região, André reconhece um crescimento nos últimos anos, com a ampliação de grupos, artistas independentes e ações formativas. Ao mesmo tempo, aponta a necessidade de fortalecer redes entre artistas, instituições e políticas públicas, de modo a garantir continuidade e maior articulação entre as iniciativas.

Entre a criação e a gestão, seu percurso se organiza a partir dessas conexões. Mais do que percorrer linguagens diferentes, o artista constrói um trabalho em que corpo, imagem e território se encontram como parte de um mesmo processo.



| Foto: Thierri Oliveira |

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