GG do Apocalipse: a voz que surge das ruas e fortalece o Hip Hop no Vale do São Francisco

by - abril 08, 2026

MC, poeta e produtor cultural, artista de Petrolina transforma vivências do sertão em música, mobilização e resistência coletiva

| Foto: André Amorim |

por Iasmin Monteiro

No corre entre a poesia, o rap e a produção cultural, Geomar Gomes, mais conhecido como GG do Apocalipse, vem consolidando seu nome como uma das vozes mais atuantes da cena urbana no Vale do São Francisco. Natural de Petrolina, sertão do Pernambuco, ele soma mais de nove anos de trajetória articulando arte, território e transformação social.

Mais do que MC, GG se define como um agente cultural. É fundador do projeto Vale na Essência e do movimento Coletivo Rua, iniciativas que nascem com um objetivo direto: democratizar o acesso à arte nas periferias e criar oportunidades para quem, como ele, cresceu sem espaços garantidos para sonhar.

Essa caminhada se constrói tanto nos palcos quanto nas ruas. Ao longo dos anos, GG esteve à frente e participou de ações que movimentaram a cena local, como a Batalha da Vila, o Encontro de MC's, o Festival das Juventudes e a Batalha do Conhecimento, além de projetos mais recentes como o Quinta do Rap. Um dos marcos dessa trajetória foi o Esquenta Hip Hop, realizado em 2023 na Orla de Petrolina, reunindo os quatro elementos da cultura: DJ, MC, breaking e graffiti.

A iniciativa não ficou restrita a um único evento. A partir dela, GG expandiu sua atuação para espaços como o SESC, escolas públicas e grandes programações da cidade, como o Carnaval de Petrolina, levando a cultura urbana para diferentes públicos e territórios.

| Foto: @maximum.mgz |


Sua relação com a arte começou ainda na escola, quando escrevia poesias e foi incentivado por uma professora a apresentá-las publicamente. O convite para participar de um coletivo de poesia local marcou o início de sua trajetória nos palcos. Pouco tempo depois, em 2019, lançou sua primeira música, gravada em casa, com poucos recursos, mas muita intenção.

Desde então, sua identidade artística foi se consolidando como uma fusão entre rap, rock e poesia, refletindo as tensões, denúncias e vivências do sertão. Em faixas como "Diss Pretérito Imprefeito", GG transforma indignação em verso ao criticar estruturas de poder e desigualdades históricas em Petrolina, abordando desde concentração política até questões básicas como fome e acesso à água.

Essa dimensão crítica segue presente na nova fase do artista. Em abril, GG inicia uma sequência de lançamentos que reforçam seu posicionamento. A faixa "Esquenta Hip-Hop" resgata a essência do movimento construído nas ruas, enquanto "Nazi Skatista" aposta na mistura de trap com metal para confrontar discursos de ódio, racismo e ideologias extremistas.

Mas é no conceito que guia esse novo momento que sua proposta ganha ainda mais força. Intitulado "POR FAVOR", o projeto se apresenta como um grito coletivo de resistência. Uma expressão e um chamado que grita por demandas básicas historicamente negadas à população periférica: educação, saúde, segurança, saneamento e dignidade à viver com plenitude.

| Foto: @maximum.mgz |


Segundo GG, esse grito não é individual, mas compartilhado. Ele atravessa diferentes movimentos e linguagens, conectando o hip-hop ao rock, ao reggae, ao samba e às religiões de matriz africana, unindo sujeitos que vivem à margem, mas que seguem criando. “Estamos batalhando todo santo dia, acreditamos no nosso sonhos, e sabemos o quanto esse movimento pode mudar a vida das pessoas que estão em estado de abandono, tanto fisicamente como mentalmente”, disse.

Mesmo com reconhecimento crescente na cidade, GG ainda lida com desafios estruturais, como a falta de recursos para produzir e lançar suas músicas com a qualidade que considera ideal. Ainda assim, segue criando, acumulando faixas e estruturando projetos maiores, como o EP "Vale na Essência", que pretende reunir diferentes narrativas sobre a vida no sertão. “Somos desacreditados todos os dias, por família, amigos e até desconhecidos, Mas nunca irei deixar de acreditar nos meus sonhos”, reflete.

Para ele, a arte sempre foi mais do que expressão: foi caminho. "Fui salvo pela arte", afirma. E é a partir dessa experiência que constrói sua missão de abrir caminhos para que outros jovens também encontrem, na cultura, uma possibilidade de transformação. 





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